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Mamãe

12/10/2008

Na eterna noite invernosa os vaga-lumes, luzeavam entre si: “quando ela pararia de gritar?”.Em plenos pulmões berrava sem hesitar, dobrando o corpo esquelético, cravando os dentes nos lençóis sujos.Uma idosa, vizinha sua de distancia longínqua, insistia em fazê-la engolir alguns tragos de vinho opaco e vermelho.A chama do lampião morria lentamente.

As paredes de barro vivo, deteriorado pela água, deslocava-se seres larvais, oscilantes a cada brado agudo.Ao pé da janela descansava a máquina de costura, com o trabalho ainda preso entre as presas.Extinguiu-se a chama, e a mulher, sob os dedos tímidos da velha, prosseguia berrando na escuridão.

Pôs no mundo o miúdo pela madrugada.No momento notou-se invadida por um incomum e profundo conforto.As lágrimas escorregavam-lhe dos olhos ocultados.Estava sozinha com o filho.Por que aquele de carne tenra e cálida, envolto em panos hemorrágicos, abraçado à sua pele, era seu filho…

Alvorecia o dia.Um clarão lívido veio sujar a miserável habitação.Lá fora, a tristeza dos insetos de terem sua noite perturbada.A mulher fitou o menino, que fazia seu novo gemido e abria e achegava a boca, lábios vermelhos, alojo sedento de vida e dor.E então a mãe sentiu tamanho carinho subir-lhe à garganta.Contrária à vontade do filho que sucumbia o seio, deu-lhe as mãos, suas ossudas mãos operárias; agarrou o pescoço frágil e apertou.Torceu amorosamente, em polimento, implacavelmente.Foi até o fim.Não se escuta nenhum inseto.

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Manual de boas ações

26/09/2008

Tenho um pequeno caderno em mãos, não sei o que escrever, eu estou bem acomodado nos assentos para necessitados, sem duvida estou precisando de uma idéia, à vontade de escrever não se foi por hoje, uma velhinha se levanta com dificuldade do assento do meu lado, uma vontade repentina de dar um pontapé nela me veio, ainda bem que a de escrever sobrepôs esta.

Uma mulher que trajava um vestido verde, era bonita, não, não, é bonita.Pois bem ela sentou no lugar da velha.

Fingida.

Fingida.

Ela não tem necessidade de sentar ali, ela nem sequer vai escrever, vou dar uma finalidade para ela antes que algum velho a importune.

“O que você acha de deixar um velho em pé”, espontâneo foi de minha parte, ela parecia não ter entendido, repeti com outras palavras, agora mais simples, “você gosta de escrever?”.Ela pensou, olhou pro lado, conversou consigo mesma, “um pouco”, mentirosa, mas tudo bem, o intuito aqui é tirar uma boa história, “você me ajuda a escrever uma história?”, ela me achou espontâneo demais, isto não é ruim, pensava mais e mais, pensar para ela devia ser algo pouco utilizado, “escreve sobre seu dia”, no dia ela abriu um sorriso tentando me convencer, “boa idéia, mas por onde começo?”, eu olhava para o papel branco, quase não se via as linhas, eram tão distantes.

O sorriso dela já vinha antes do inicio da frase, ai tem coisa, ”escreve sobre uma garota desconhecida do trólebus”, hei, quem faz as cantadas aqui sou eu, não vi luxuria em seus olhos, tudo mal, mais uma ingênua?Ela começava a ditar “começa a escrever sobre ambiente aqui dentro e como mudou”, transformou um pouco, agora a velha já ira.Percebi seu narizinho farejando algum cheiro vindo de mim, procurava saber meu perfume na certa, “nossa que perfumado você esta!”, uma observação: não estou usando perfume algum, suor eu tinha um pouco espalhado pelo corpo, ela deve gostar.

O trólebus parou num ponto, ela se levantava, disse simplesmente “boa sorte na escrita”, nem sorriu, ela já ia saindo com uma certa satisfação, corri a porta e indaguei: “Qual é seu nome?”, exibiu seus dentes outra vez para mim, agora mais abertos.Ela me ajudou a terminar isto no dia seguinte, gostaria de saber como as pessoas te chamam garota sorriso.