Fiquei de longe à observar a velha tentar atravessar a rua, um carro passava em alta velocidade,ela hesitava, a senhora parava outra vez, um caminhoneiro a elogiava carinhosamente de cega antes de virar a próxima esquina com uma certa pressa.
O sol parecia não brilhar para ela, cada rachadura de seu corpo frágil tinha uma história boa para compartilhar, seguindo a regra geral de nunca dividir com os semelhantes coisas malévolas, mas como era egoísta.
Aproximei dela, na esperança de tirar uma experiência dela, ela tremia, desesperada, não aceitava sua situação, acha que consegue atravessar sozinha.Por fim se rendeu, vi em seus olhinhos cansados, seu pedido, ela queria mesmo morrer, eu não faria isto, peguei na sua mão mole, levei-a, olhei para ambos lados nenhum carro, atravessamos numa certa lerdeza, os motoristas foram pacientes, ela parecia um pouco alegre, acho que vi em seu rosto algo que lembre um sorriso, tirou de sua bolsinha florida uma modesta moeda, a partir dai esse passou a ser meu emprego principal, o de antes eu estava de férias permanente, não era renomeado, o trabalho em si era arrumar meu quarto.
Todo dia a velhinha ficava lá me esperando para ajuda-la, foi assim por pouco mais de um mês, ganhei muitas moedas, mamãe achou que eu estava me envolvendo com drogas ou me vendendo, esclareci para ela que se tivesse fazendo algo do tipo teria muito mais dinheiro.
Essa velha me surpreende, num certo dia, quando ajudava ela atravessar, ela estava diferente, muito mais tensa, e preocupada, no momento do pagamento, a decepção, ela fez um cafuné sem vitalidade em minha cabeça, ela quase chorava.
Não me importava com o dinheiro, alias poderia ganhar muito mais com outros meios, só não queria que ela conseguisse realizar seu maior desejo.
No seguinte dia, estava lá eu, na mesma hora, havia algo diferente na paisagem habitual, pessoas curiosas formavam uma roda em meio ao asfalto, me aproximei, com dificuldade vi, lá estava ela retorcida no chão listrado, ela conseguiu o que queria, isto me deixou triste muito triste mesmo.